Governador Carlos Brandão Nega Envolvimento em Organização Criminosa Investigada pela PF no Maranhão

Governador Carlos Brandão nega envolvimento em organização criminosa investigada pela PF no Maranhão

O governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), negou neste sábado (15) qualquer envolvimento com uma organização criminosa investigada pela Polícia Federal (PF) no estado. A declaração veio um dia depois de o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornar públicas três decisões relacionadas às apurações.

O que Brandão disse sobre as suspeitas

As investigações reúnem suspeitas de desvio de recursos públicos, irregularidades em contratos, obstrução da Justiça e um homicídio ocorrido em 2022. Diante disso, o governador afirmou não ter participado de nenhum crime e classificou as acusações como uma tentativa de desgastar sua imagem em ano eleitoral.

"Eu não tenho nenhum envolvimento com crime, com corrupção, isso não existe. Isso é coisa factóide de época de eleição."

Brandão também citou sua trajetória política — passou por cargos de secretário de Estado, deputado federal e vice-governador — e disse que suas contas no serviço público já foram analisadas pelos órgãos responsáveis. Segundo ele, não conhece todo o conteúdo da investigação e não vê fundamento nas suspeitas levantadas contra si.

Defesa questiona a competência do STF

Um dia antes da fala do governador, a assessoria de Brandão já havia questionado se o STF tem competência para analisar fatos envolvendo autoridades estaduais. O argumento é o mesmo defendido por seus advogados: por ter foro por prerrogativa de função, o governador deveria ser investigado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), não pelo Supremo.

A resposta do outro lado veio pela assessoria de Flávio Dino, que afirmou que o ministro não participa de debates políticos desde que assumiu a cadeira no STF, em fevereiro de 2024, e que atua apenas nos processos que lhe são distribuídos conforme as regras do tribunal.

Como tudo começou: o caso Tech Office

Para entender a origem das investigações, é preciso voltar a agosto de 2022. Foi quando o empresário João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira foi assassinado em São Luís, em um episódio que ficou conhecido como caso Tech Office.

Gilbson César Soares Cutrim Júnior foi apontado como executor do crime e condenado pela Justiça maranhense a 13 anos de prisão. Depois da condenação, a investigação avançou para apurar se o homicídio teria relação com uma suposta cobrança de propina envolvendo contratos públicos — e foi aí que o caso ganhou uma nova dimensão.

PF aponta Brandão como "provável líder" da organização

Segundo apurações mais recentes da Polícia Federal, tornadas públicas por decisão do ministro Flávio Dino, <cite index="13-1">a PF identifica Carlos Brandão como "provável líder" de uma organização criminosa que, segundo a investigação, teria atuado antes e depois do assassinato do empresário</cite>. A mesma linha de investigação aponta que <cite index="12-1">o esquema estaria ligado a suspeitas de desvio de emendas parlamentares e contratos públicos firmados no estado</cite>.

Entre os citados na apuração está Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) e sobrinho do governador. Daniel <cite index="14-1">foi afastado por 180 dias da presidência do TCE-MA por decisão cautelar de Dino, no âmbito da apuração sobre organização criminosa suspeita de desviar verbas federais e emendas parlamentares no estado</cite>. Ele nega qualquer irregularidade e afirma estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Brandão, por sua vez, disse considerar o caso do assassinato encerrado desde a condenação do executor, e afirmou estranhar que a investigação volte a atingir sua família às vésperas das eleições:

"Esse caso já foi julgado, o réu confessou o crime, ele foi julgado e condenado a 13 anos de cadeia. Para mim, era um caso que já tinha sido encerrado, porque ele confessou o crime. E em nenhum momento envolve qualquer pessoa da minha família."

Ex-secretário é investigado por suposta coação de testemunhas

Outro nome envolvido nas apurações é o ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, Raimundo Cutrim. Em julho, Flávio Dino determinou sua prisão domiciliar preventiva no âmbito da investigação.

Segundo a PF, Cutrim é suspeito de tentar induzir familiares de Gilbson Cutrim a alterarem depoimentos prestados durante a investigação do assassinato. Atualmente, ele cumpre prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. A defesa do ex-secretário afirma não ter tido acesso integral aos autos e nega qualquer irregularidade.

Investigação chegou ao STF através de um senador

O caso não tramitava originalmente no Supremo. Antes disso, ele estava sob análise do STJ. A mudança ocorreu em novembro de 2025, depois de surgirem suspeitas envolvendo o senador Weverton Rocha (PDT-MA), que tem foro por prerrogativa de função no STF.

A Polícia Federal analisou dados do celular do senador, apreendido em outra investigação, e identificou contatos entre ele e o ministro do STJ Humberto Martins entre janeiro de 2023 e outubro de 2025. Um desses contatos — uma troca de mensagens seguida de uma ligação de cerca de cinco minutos, em 2 de junho de 2025 — chamou a atenção dos investigadores: na mesma data, Humberto Martins determinou a transferência do executor do assassinato para um presídio em Brasília.

A PF apura se o senador tentou interferir no andamento das investigações. Weverton nega irregularidades e classificou como "forçação de barra" a tentativa de relacionar os contatos às decisões do processo. Humberto Martins, que não é formalmente investigado, informou que não se manifestaria sobre o caso.

Defesa de Brandão pede afastamento de Dino do caso

Diante do avanço das investigações, a defesa do governador foi além do simples questionamento sobre competência. <cite index="15-1">Os advogados de Brandão pediram ao STF o afastamento do ministro Flávio Dino da relatoria dos inquéritos, alegando possível conflito de interesses</cite>.

O argumento é que, apesar de ter deixado a política para ingressar no Judiciário, <cite index="16-1">Dino manteria "afilhados políticos" com interesses eleitorais no Maranhão, e os inquéritos estariam sendo usados para favorecer o grupo político ao qual o ministro pertence</cite>. Vale lembrar: Dino e Brandão foram aliados durante anos — Dino governou o Maranhão entre 2015 e 2022, com Brandão como vice — mas romperam politicamente depois que o atual ministro deixou o cargo para assumir a cadeira no STF.

O gabinete de Flávio Dino informou que o ministro não vai se manifestar sobre o pedido de afastamento.

Um caso no centro da disputa eleitoral de 2026

Com as eleições gerais se aproximando, os inquéritos se tornaram um dos principais pontos de tensão política no Maranhão. De um lado, o grupo liderado por Carlos Brandão; do outro, o grupo político remanescente do legado de Flávio Dino — hoje seu principal adversário no estado.

A PF ainda avalia se houve blindagem política nas investigações estaduais originais e segue reunindo elementos para esclarecer as conexões entre o esquema de desvio de recursos e o homicídio de 2022. Até o momento, nenhuma das autoridades citadas foi condenada nesta frente da investigação — todos têm assegurados o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal.

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